O Poder do Agora: quando o momento presente vira um lugar seguro para voltar

Tem dias em que a vida não está acontecendo — pelo menos não do jeito que a gente sente que deveria.

O corpo está aqui, sentado, andando, trabalhando, respondendo mensagens. No entanto, por dentro, a mente está quilômetros de distância: revisando uma conversa antiga, ensaiando uma resposta que ainda não foi necessária, criando cenários, cobrando perfeição, tentando prever tudo para evitar dor.

E aí vem o paradoxo: quanto mais a mente tenta controlar o futuro, mais ansiedade ela fabrica. Quanto mais ela “corrige” o passado, mais o passado parece vivo. E, no meio desse vai e vem, a gente perde o que é mais simples e mais raro: o único lugar onde a vida realmente acontece.

É aqui que O Poder do Agora, de Eckhart Tolle, costuma tocar as pessoas. Não porque ele entregue uma fórmula mágica. Nem porque ele prometa que o sofrimento some como num truque. Mas porque ele aponta uma direção que, apesar de óbvia, foi esquecida pela maioria de nós: voltar para o agora. E, sim, isso pode parecer abstrato no começo. Entretanto, quando vira experiência — quando deixa de ser conceito e vira prática — o agora se transforma em uma espécie de chão. Um lugar interno onde você pisa quando a cabeça quer correr, e o coração quer se esconder.

A mente como ferramenta — e como prisão

O livro faz uma distinção que eu considero libertadora: pensar é útil; ser sequestrado pelo pensamento é exaustivo.

Pensar resolve problemas reais. Planejar ajuda. Aprender com o passado é importante. Só que, ao mesmo tempo, existe um ponto em que o pensamento deixa de servir e começa a mandar. Ele não vira mais uma ferramenta: vira um ambiente. A gente passa a morar nele.

E morar na mente, por longos períodos, costuma ter um custo.

Porque a mente não é neutra: ela tem preferência por perigo. Ela “escaneia” o mundo em busca do que pode dar errado. Além disso, ela é uma contadora de histórias incansável: explica o que você é, o que você deveria ser, o que os outros pensam, o que você vai perder se falhar.

Tolle insiste em um convite simples: perceba que você não é a mente.

Isso não significa negar pensamentos. Significa criar um pouco de espaço entre “eu” e “o que passa na minha cabeça”. A partir desse espaço, você consegue ver o pensamento como evento — e não como verdade.

Aliás, existe uma frase atribuída com frequência a Viktor Frankl que captura bem essa ideia: “Entre o estímulo e a resposta existe um espaço… e nesse espaço está o nosso poder de escolha.” Só que vale um cuidado honesto: essa citação é frequentemente atribuída a Frankl, mas nem sempre aparece dessa forma literal em suas obras; ainda assim, a ideia é discutida e amplamente usada em psicologia e educação emocional. University of Minnesota Extension+1 Ou seja: mesmo quando a vida aperta, existe um intervalo possível. E o agora, no fundo, é isso — o intervalo onde você recupera o volante.

“Fazer do agora o foco principal” (e por que isso não é frase bonita)

Uma das frases mais repetidas do Tolle é direta: “Perceba profundamente que o momento presente é tudo o que você tem. Faça do AGORA o foco principal da sua vida.” Facebook

Pode soar radical. Porém, quando você observa com calma, percebe: passado e futuro são úteis como referências — mas não são lugares habitáveis.

O passado existe como memória. O futuro existe como imaginação. E ambos podem ser usados com sabedoria.

Contudo, se a sua identidade está presa ao que já aconteceu, você vive em dívida. Se ela está presa ao que ainda não aconteceu, você vive em expectativa. Em ambos os casos, você não descansa.

Fazer do agora o foco principal não é abandonar metas. Pelo contrário: é recuperar presença suficiente para caminhar com mais consistência. Porque uma mente presente tende a agir melhor. Já uma mente desesperada tende a reagir.

O ego: a voz que quer garantir “valor” o tempo todo

No vocabulário do livro, o ego não é apenas vaidade. Ele é algo mais cotidiano: a construção mental que precisa de histórias para se sentir alguém.

O ego se alimenta de comparação, de imagem, de controle. Quer ter razão, estar acima, estar seguro.

E é por isso que o ego sofre tanto: porque a vida real não cabe no controle que ele exige.

Além disso, o ego tem um vício silencioso: ele prefere uma identidade dolorosa a nenhuma identidade. Às vezes, ele se agarra à mágoa porque a mágoa “define” algo. Ele revisita a injustiça porque, assim, mantém a sensação de estar certo. Ele não perdoa porque perdoar seria abrir mão de uma narrativa.

Entretanto, quando você começa a observar essa dinâmica, algo muda: você não precisa brigar com o ego. Você só precisa não ser ele. E esse é um ponto de maturidade emocional: parar de confundir “eu” com “minhas histórias”.

O “corpo de dor”: quando o passado vira reflexo no presente

Outro conceito marcante de Tolle é o pain-body, frequentemente traduzido como “corpo de dor”. Ele descreve um acúmulo de dor emocional não digerida que, em certos gatilhos, “acorda” e assume o comando.

Você já viveu isso, mesmo sem esse nome:

  • você reage grande demais para uma situação pequena;
  • você se sente rejeitado antes de ser rejeitado;
  • você escuta uma crítica e vira criança por dentro;
  • você se irrita, mas nem sabe exatamente por quê.

Nesses momentos, não é só sobre o que está acontecendo agora. É também sobre uma memória emocional antiga que encontrou uma brecha.

A saída proposta pelo livro não é negar a dor. Ao contrário: é sentir com presença, sem alimentar com história.

Porque história é combustível. Presença é digestão.

E, sim, isso exige coragem — a coragem de ficar. De não se anestesiar. Não correr para o celular ou não transformar sentimento em argumento.

O agora como prática (e não como um estado perfeito)

Talvez a parte mais bonita do livro seja essa: o agora não é um pico espiritual. Ele é uma prática simples, repetida, humana.

Na vida real, presença parece muito mais com isto:

  • perceber que você está tenso e soltar um pouco os ombros;
  • notar que a mente acelerou e voltar para a respiração;
  • sentir o peso do corpo na cadeira;
  • ouvir de verdade alguém sem preparar resposta;
  • caminhar sem estar “chegando” no próximo lugar antes de andar.

É um retorno. E retorno não precisa ser heroico. Ele só precisa ser constante.

O que a ciência diz quando a espiritualidade vira hábito

Aqui vale um cuidado importante: O Poder do Agora é um livro espiritual e filosófico, não um manual clínico. Mesmo assim, muitos dos seus efeitos práticos se cruzam com aquilo que a ciência chama de mindfulness (atenção plena).

E quando mindfulness é estudado com rigor, os resultados costumam ser modestos — mas reais.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no JAMA Internal Medicine avaliou programas de meditação e encontrou evidências de melhorias pequenas a moderadas em aspectos como ansiedade e depressão em algumas populações, especialmente em programas baseados em mindfulness. JAMA Network+1

Além disso, uma meta-análise ampla sobre terapias baseadas em mindfulness concluiu que elas podem ser eficazes para reduzir ansiedade, depressão e estresse em diferentes contextos. PubMed+1

Outra revisão e meta-análise, focada em intervenções de mindfulness para transtornos psiquiátricos, também aponta efeitos promissores (com nuances e limites, como diferenças de amostra e qualidade dos estudos). PubMed+1 Ou seja: não é milagre. Contudo, também não é só “sensação”. Presença treinada tende a melhorar a relação com pensamentos e emoções — e isso muda muita coisa.

“Você não pode parar as ondas… mas pode aprender a surfar”

Jon Kabat-Zinn, um dos principais nomes na popularização do mindfulness no Ocidente, tem uma frase que virou metáfora clássica: “Você não pode parar as ondas, mas pode aprender a surfar.” Recovery Warriors+1

Eu gosto dessa imagem porque ela tira a gente do delírio do controle.

Você não vai impedir a tristeza de existir. Não vai proibir o medo de aparecer. Não vai negociar com a impermanência. Porém, você pode desenvolver uma habilidade: não se afogar na própria reação. E aqui o livro do Tolle encontra a vida cotidiana: o agora vira prancha. Não para eliminar as ondas, e sim para atravessá-las com mais dignidade.

Aplicando o Agora na vida que a gente vive de verdade

1) Relações: presença é uma forma de amor

Quando alguém fala com você e você está realmente ali, algo muda no campo da relação. A pessoa sente. Você também.

Entretanto, se você está ouvindo com metade do corpo e a mente no resto do mundo, fica um vazio sutil. E esse vazio se acumula.

Presença não resolve todos os conflitos. Mas, ainda assim, ela reduz ruído, desarma defesas e cria espaço para verdade.

2) Trabalho: foco não nasce de pressão, nasce de clareza

Muita gente tenta produzir mais se cobrando mais. Só que cobrança constante vira tensão constante. E tensão constante reduz lucidez.

O agora, na prática, é perguntar:

  • “Qual é a próxima ação simples?”
  • “O que eu consigo fazer nos próximos 15 minutos?”
  • “O que está no meu controle hoje?”

Com isso, você sai do pânico mental e volta para o passo possível.

3) Ansiedade: futuro não é inimigo, mas não é casa

Ansiedade é, muitas vezes, uma tentativa de se preparar para dor. Só que ela prepara, e ao mesmo tempo cria dor extra. Quando você volta para o agora, você não está “ignorando” o futuro. Você só está lembrando que o futuro não precisa ser carregado nas costas o tempo todo.

Três exercícios simples para praticar o Agora sem romantizar

Check-in de 30 segundos
Pare. Respire. Nomeie:

  • “Agora, eu sinto ____.”
  • “Agora, meu corpo está ____.”
  • “Agora, minha mente está tentando ____.”

Nomear organiza.

  1. Uma atividade por vez
    Durante um trecho curto do dia (10 minutos), faça uma coisa só: lavar louça, caminhar, escrever, tomar café. Sempre que a mente fugir, volte. Sem bronca.
  2. A pergunta que corta o drama
    Quando você perceber sofrimento mental, pergunte:
  • “Nesse exato momento, existe um problema real… ou existe um problema pensado?”

Às vezes existe um problema real — e você age. Em outras, é só ruminação — e você descansa.

O Agora não é fuga: é maturidade

Uma crítica comum ao livro é: “isso não vira escapismo?”. Pode virar, sim, se a pessoa usar presença como anestesia.

Só que o convite do Tolle, no seu melhor, é o contrário: presença é encarar a realidade sem distorção.

E encarar a realidade inclui sentir o que é desconfortável, reconhecer padrões, assumir responsabilidade, pedir perdão, colocar limites, fazer escolhas. O agora não te tira do mundo. Ele te devolve para ele — com menos mentira.

Para o Mente & Domínio: domínio emocional começa no instante em que você volta

Se eu pudesse resumir o impacto desse livro em uma frase prática, seria algo assim:

Domínio emocional não é controlar a emoção. É recuperar presença antes de obedecer a ela.

Quando você volta, você não precisa vencer o sentimento. Você só precisa não se perder nele.

E, aos poucos, isso muda o jeito como você vive:

  • você discute menos para “ganhar” e mais para entender;
  • você se cobra menos para provar e mais para construir;
  • você sofre menos por antecipação e mais… sente o que é real;
  • você descobre que paz não é ausência de problema, é presença apesar dele.

No fim, O Poder do Agora não é um livro para “acreditar”. É um livro para experimentar. E talvez esse seja o convite mais humano de todos: voltar para o lugar onde você ainda consegue respirar — aqui. Agora.

Mensagem do Autor:

As reflexões sobre filmes publicadas neste site têm caráter crítico e interpretativo, respeitando os direitos autorais de seus respectivos autores e criadores.

Abaixo, compartilho alguns livros que dialogam com as reflexões trazidas neste artigo e que, em diferentes momentos, também me ajudaram a expandir a mente e a mudar a forma como enxergo a vida.
Para quem prefere, deixo as versões em português (PT-BR).
E, para quem gosta de ler no idioma original, como eu, indico também as versões em inglês (EN-US).

Aviso: Este artigo pode conter links de afiliados. Isso significa que posso receber uma comissão se você realizar uma compra, sem nenhum custo adicional para você.

Compartilhe este artigo