O Rei Leão: identidade, perda e a coragem de assumir quem somos

Algumas histórias atravessam gerações porque não envelhecem. Elas apenas ganham novas camadas conforme nós mudamos. O Rei Leão é uma delas.

Na infância, é uma animação vibrante, cheia de música e aventura. Na vida adulta, revela algo mais profundo: uma história sobre identidade, perda, responsabilidade e o difícil caminho de voltar para si mesmo. O que torna O Rei Leão tão poderoso não é o enredo grandioso, mas a forma simples com que ele fala sobre dores que todos, cedo ou tarde, enfrentam.

O peso da perda e o silêncio do luto

A morte de Mufasa marca uma ruptura definitiva na história — e na vida de Simba. Não apenas pela perda em si, mas pela culpa que se instala logo depois.

O filme mostra algo que raramente é dito com clareza: o luto nem sempre vem acompanhado de apoio ou compreensão. Muitas vezes, ele vem junto com silêncio, confusão e fuga. Simba não sabe como lidar com a dor, então foge dela. E, ao fugir, deixa para trás não só o passado, mas também quem ele poderia se tornar. Essa é uma das verdades mais humanas do filme: quando não elaboramos a dor, ela não desaparece — apenas nos acompanha em silêncio.

Fugir de quem somos também tem um custo

“Sem preocupações” parece leve, mas carrega uma armadilha. A vida de Simba longe de suas responsabilidades pode parecer tranquila, mas é vazia. Ele sobrevive, mas não cresce.

O filme não condena a pausa. Pelo contrário: mostra que descansar é necessário. O problema surge quando o descanso vira negação, quando o alívio momentâneo substitui o enfrentamento do que precisa ser vivido. Fugir de quem somos pode aliviar por um tempo, mas cobra um preço alto: a perda de sentido. (Aqui, Ressentimento: a ferrugem da alma que corrói com o tempo, falo sobre como o ressentimento pode nos aprisionar ao passado e limitar a pessoa que podemos nos tornar)

Memória de Mufasa e Simba

A figura do pai como memória e direção

Mufasa não desaparece com a morte. Ele se transforma em referência.

A famosa cena nas nuvens não é sobre nostalgia, mas sobre lembrança de identidade. “Lembre-se de quem você é” não é um chamado à glória, mas à verdade. Ao caráter. À responsabilidade que não vem do poder, mas do pertencimento. Aqui, O Rei Leão toca em algo profundo: pais, mentores e figuras de referência continuam nos guiando mesmo quando não estão mais presentes fisicamente. O que permanece não é a autoridade, mas os valores.

Responsabilidade não como peso, mas como sentido

Assumir seu lugar não significa buscar controle ou domínio sobre os outros. Para Simba, tornar-se rei não é sobre governar — é sobre restaurar equilíbrio.

O filme redefine liderança de forma sutil: liderar é cuidar. É assumir consequências. É deixar de pensar apenas em si para considerar o impacto de suas escolhas no todo. Responsabilidade, aqui, não é punição. É propósito.

Nala e o poder de acreditar em quem alguém é — mesmo quando essa pessoa esquece

Enquanto Simba foge de quem é, existe alguém que nunca esquece: Nala.

Ela não idealiza Simba, nem ignora seus erros ou ausências. Mas também não aceita a versão reduzida que ele cria de si mesmo. Nala enxerga além da fuga, além do medo, além da culpa. Ela vê quem Simba sempre foi — e quem ainda pode ser.

Esse é um dos gestos mais poderosos do filme: acreditar em alguém quando essa pessoa já não consegue acreditar em si mesma.

Nala não tenta convencer Simba com força. Ela lembra, confronta e sustenta uma verdade que ele tenta abandonar. E, ao fazer isso, cria um espaço seguro para que ele volte a se reconhecer.

Acreditar em alguém tem um impacto profundo. Quando feito com maturidade, não é pressão — é espelho. É dizer, mesmo em silêncio: “Eu vejo você. E você é maior do que esse medo.”

Quantas vezes, na vida adulta, seguimos adiante apenas porque alguém acreditou antes de nós? Porque alguém manteve viva uma versão nossa que ainda não conseguíamos acessar? Nala representa essa força silenciosa. A presença que não desiste. A voz que chama de volta. E o lembrete de que, às vezes, o que nos devolve ao nosso caminho não é coragem própria — é a confiança de alguém que nos conhece de verdade.

O ciclo da vida e a aceitação do tempo

O “ciclo da vida” não é apenas um conceito bonito. É um lembrete de impermanência.

Tudo muda. Relações, papéis, fases. Resistir a isso gera sofrimento. Aceitar não significa desistir, mas compreender que cada etapa exige uma versão diferente de nós mesmos. Simba só encontra paz quando entende que não pode voltar a ser quem era antes — mas pode se tornar quem precisa ser agora.

Simba se dirigindo á retomada do trono

Ser quem você é exige coragem

No fim, O Rei Leão não é sobre se tornar rei. É sobre se tornar inteiro.

Enfrentar o passado, aceitar a dor, reconhecer falhas, assumir responsabilidades e, ainda assim, seguir em frente. Não como alguém perfeito, mas como alguém consciente. Ser quem você é exige mais coragem do que continuar se escondendo.

Conclusão

O Rei Leão permanece relevante porque fala de algo essencial: a jornada de retorno à própria identidade. Não aquela idealizada, mas a real — construída a partir de perdas, escolhas e amadurecimento.

Talvez a maior lição do filme seja simples e profunda ao mesmo tempo: não podemos mudar o que aconteceu, mas podemos escolher o que fazer com isso. E, às vezes, crescer é exatamente isso — parar de fugir e aceitar o lugar que sempre foi nosso.

Mensagem do Autor:

Leituras que me acompanharam

Abaixo, compartilho alguns dos livros que me ajudaram a expandir a mente e a mudar a forma como enxergo a vida.
Para quem prefere ler em português, deixo as versões em PT-BR.
E, para aqueles que gostam de ler no idioma original, como eu, também indico as versões em EN-US.

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