Quando a mágoa se instala
O ressentimento raramente entra em nossa vida de maneira abrupta. Ele não bate à porta, não anuncia sua chegada. Pelo contrário: ele se infiltra. Vai se formando aos poucos, em silêncio, quase imperceptível. Surge de situações mal resolvidas, de conversas interrompidas, de palavras que nunca foram ditas ou que foram ditas tarde demais. Nasce de expectativas criadas com cuidado, mas nunca correspondidas.
No início, parece pequeno. Um incômodo leve, uma lembrança desagradável que surge de vez em quando. Algo que acreditamos ser temporário. “Isso passa”, pensamos. Mas o tempo segue, e aquilo que parecia inofensivo começa a se acumular. Cada nova frustração se conecta à anterior, formando uma rede invisível de mágoas.
O ressentimento é uma emoção humana, profundamente humana. Todos nós, em algum momento, o sentimos. Ele não é sinal de fraqueza nem de falha moral. O problema não está em senti-lo, mas em ignorá-lo. Quando não reconhecido, ele começa a ocupar espaços internos que antes eram leves. A mente revisita o passado repetidas vezes. O corpo responde com tensão. As relações sentem o impacto, mesmo quando nada é dito. O ressentimento não grita. Ele desgasta.
A ferrugem invisível
O ressentimento se parece muito com a ferrugem. Não destrói de uma vez. Não quebra, não explode, não chama atenção. Ele corrói lentamente tudo aquilo que toca.
O metal, quando exposto por muito tempo sem cuidado, começa a enferrujar. Pequenos pontos surgem, quase imperceptíveis. Com o tempo, a estrutura enfraquece. Algo que parecia sólido se torna frágil. O mesmo acontece com nossas emoções quando feridas antigas permanecem abertas.
Relações que poderiam ser saudáveis se tornam tensas. Conversas perdem profundidade. A escuta vira defesa. A presença se transforma em vigilância. Não porque algo externo mudou drasticamente, mas porque algo interno começou a endurecer.
Carl Jung dizia que “aquilo que negamos em nós mesmos acaba nos controlando”. O ressentimento é exatamente isso: uma emoção negada que passa a governar silenciosamente nossas reações. Ele distorce percepções, contamina julgamentos e nos mantém presos a uma versão antiga da dor. A ferrugem é um sinal de alerta. O ressentimento também.
De onde ele nasce
Na maioria das vezes, o ressentimento nasce da sensação de injustiça. De traições que não foram elaboradas, comparações constantes, promessas quebradas e expectativas legítimas que nunca encontraram reconhecimento.
Outras vezes, ele nasce do silêncio. Do engolir repetido. Do “deixa pra lá” que nunca foi realmente embora. Da tentativa constante de manter a paz externa às custas do caos interno.
Existe uma crença comum de que ignorar a dor faz com que ela desapareça. Mas emoções não funcionam assim. Quando não olhamos para elas, elas não somem — apenas mudam de lugar. O ressentimento, quando reprimido, se transforma em irritação constante, impaciência, cinismo, frieza emocional ou afastamento afetivo.
Segundo o psicólogo e pesquisador Paul Ekman, emoções reprimidas encontram outras formas de expressão, muitas vezes através do corpo ou de comportamentos automáticos. O ressentimento não resolvido pode se manifestar como tensão muscular, fadiga constante ou até doenças psicossomáticas. Não é fraqueza sentir. É humanidade.

O impacto que quase não percebemos
O ressentimento afeta muito mais do que imaginamos. Ele altera a forma como enxergamos os outros — e, aos poucos, a forma como enxergamos a nós mesmos.
Pequenos gestos passam a incomodar. Situações neutras parecem ataques pessoais. Comentários simples ganham um peso desproporcional. O corpo entra em estado de alerta constante, como se estivesse sempre esperando uma nova ameaça.
A mente, condicionada pela dor antiga, começa a interpretar o presente com base no passado. Isso gera um ciclo silencioso de afastamento. A leveza se perde. O humor muda. O isolamento cresce.
Não porque as pessoas mudaram, mas porque algo dentro de nós endureceu.
Viktor Frankl, psiquiatra e sobrevivente do Holocausto, dizia que “quando não podemos mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos”. O ressentimento nos prende exatamente ao oposto disso: à tentativa inconsciente de fazer o passado mudar. E o passado não muda.
O convite ao cuidado
Lidar com o ressentimento não é um ato de fraqueza. É um gesto profundo de honestidade consigo mesmo. Exige coragem. Exige maturidade emocional.
Reconhecer a dor, nomear o que incomoda e permitir-se sentir é o primeiro passo. Não para justificar o que aconteceu, nem para apagar o passado — mas para não continuar vivendo aprisionado a ele.
O perdão, quando vem, não é um prêmio para quem feriu. É uma libertação interna. É a decisão consciente de interromper a corrosão. De devolver ao outro aquilo que nunca foi nosso carregar.
A psicóloga Brené Brown afirma que “a vulnerabilidade não é ganhar ou perder; é ter a coragem de aparecer quando não podemos controlar o resultado”. Olhar para o ressentimento é um exercício de vulnerabilidade. Não há garantias imediatas de alívio. Mas há verdade. E onde há verdade, há possibilidade de cura.
Quando o ressentimento vira um peso
Durante muito tempo, eu conheci o ressentimento de perto.
Meus pais se separaram quando eu tinha 9 anos, após uma traição por parte do meu pai. Naquele momento, minha mãe não trabalhava. Éramos três crianças: eu, com 9 anos; minha irmã, com 5; e meu irmão, com apenas 3. Meu pai não pagava pensão, e o pouco que minha mãe conseguia ganhar mal cobria o básico.
O resultado foi fome, dificuldade financeira e uma ausência quase total de apoio emocional. A infância perdeu o senso de segurança cedo demais. A vida exigiu maturidade antes do tempo.
Por muitos anos, eu culpei meu pai por tudo o que vivemos. Questionava como alguém podia abandonar os próprios filhos daquela forma. Como podia seguir a própria vida enquanto nós lutávamos para sobreviver.
Por fora, eu seguia. Estudava, trabalhava, sorria. Por dentro, carregava amargura, tristeza e um vazio difícil de explicar. Existiam risos, mas por trás deles havia uma raiva silenciosa que crescia com o tempo.
Descoberta e Entendimento
Até que, aos poucos, a vida começou a me mostrar algo essencial: carregar ódio, desprezo e ressentimento não estava machucando quem me feriu. Estava me machucando.
Aquilo era um peso. Um peso que me impedia de crescer, de avançar, de alcançar lugares maiores. Não por causa do passado em si, mas por continuar vivendo preso a ele.
Foi então que tomei uma decisão difícil: perdoar.
Não por ele. Por mim.
Por entender que aquela dor não era saudável e já não me pertencia, que continuar alimentando aquele ressentimento era manter viva uma história que já tinha cumprido seu papel.
Um dia, convidei meu pai para conversar. Disse que o perdoava, que não queria mais carregar aquele peso dentro de mim. Disse que desejava seguir livre.
Ele chorou. Eu chorei.
Não somos próximos até hoje. Mas algo mudou profundamente: quando penso nele, não há mais aperto no peito. Não há revolta. Não há angústia. Há distância — mas também há paz. E, sobretudo, há liberdade. (Neste artigo falo um pouco mais sobre nossos pais)
Quando pedir ajuda
Há momentos em que o ressentimento se aprofunda tanto que não conseguimos lidar sozinhos. Quando ele começa a interferir nas relações, no descanso, na capacidade de sentir alegria ou de confiar, buscar ajuda profissional não é sinal de fracasso. É cuidado.
A psicoterapia oferece um espaço seguro para nomear dores antigas, reorganizar narrativas internas e construir novos significados. A escuta certa, no tempo certo, pode transformar o que antes parecia fixo e imutável.
Como dizia Irvin Yalom, psiquiatra existencial, “a cura começa quando uma pessoa se sente profundamente compreendida”. Às vezes, tudo o que precisamos é ser vistos sem julgamento. Cuidar da mente também é um ato de coragem.

Conclusão: escolher não corroer por dentro
O ressentimento não define quem somos, mas pode moldar quem nos tornamos se não for olhado com atenção.
Cuidar das próprias emoções é um compromisso diário. Às vezes silencioso. Às vezes desconfortável. Muitas vezes solitário. Mas sempre libertador.
Soltar o que pesa não apaga a história. Não invalida a dor. Não transforma erros em acertos. Apenas impede que o passado continue corroendo o presente. A liberdade emocional começa quando escolhemos não enferrujar por dentro. Quando entendemos que seguir em frente não é esquecer — é, finalmente, viver.
Mensagem do Autor:
“Entender que o peso do ressentimento pode limitar caminhos e possibilidades é um passo importante para uma vida mais leve, livre e potente. Lembre-se: ninguém melhor do que você para saber a hora certa.“
Leituras que me acompanharam
Abaixo, compartilho alguns dos livros que me ajudaram a expandir a mente e a mudar a forma como enxergo a vida.
Para quem prefere ler em português, deixo as versões em PT-BR.
E, para aqueles que gostam de ler no idioma original, como eu, também indico as versões em EN-US.
O Poder do Agora (Amo!) | The Power Of Now
Responsabilidade Extrema (Perfeito) | Extreme Ownership
O Poder do Hábito (Poderoso) | The Power of Habit
12 Regras Para a Vida (Impactante) | 12 Rules for Life
Hábitos Atômicos (Poderoso) | Atomic Habits
A Única Coisa (Reflexivo) | The One Thing
Rápido e Devagar (Revelador) | Thinking, Fast and Slow
Aviso: Este artigo pode conter links de afiliados. Isso significa que posso receber uma comissão se você realizar uma compra, sem nenhum custo adicional para você.






